Nós

A Bárbara pela Ana:
É como se não lhe chegasse o sol, o oxigénio, o chão. Como se o horizonte fosse sempre perto de mais e a distância toda relativa. A Bárbara é esta exploradora insaciável de geografias e viagens baratas, sempre a revolver-se no mapa e a tremer nos aviões. É um radar atento, é uma bússola de escala métrica graduada, a Bárbara só não é um GPS porque não gosta de GPSs. Se pára parte, quebra-se toda por dentro e não há quem a concerte ou quem a contente. Tem uma tensão muito própria, uma espécie de descarga atmosférica na voltagem pacata de um dia qualquer. A Bárbara é bossa nova, rock'n'roll e chungaria e ainda canta o fado. Tem um bom gosto invulgar, entende o caos e cria por cima, cheia de sensibilidades e descuidos tortos. É uma atiradora de retratos, de disparo rápido, certeiro e enquadramento bem sacado. Uma pistoleira das palavras, bandida do trocadilho e da expressão rasgada. É a Bárbara. Não é toda a gente que aguenta um nome destes, mas a Bárbara faz-lhe o elogio.

A Ana pela Bárbara:
De sorriso inquietante e gargalhada fácil, a Ana é senhora de uma beleza perigosa e de um valente geniozinho. Ao elogio, deita os olhos para o chão e sorri de esguelha com um tom corado na pele. Mas é no nariz que lhe está o afinco e é no queixo que segura uma leve pontada de ironia. Nos pés traz um andar gingão pronto a tropeçar. E com a cabeça no ar dá largas passadas sem rumo, acalentadas pelos sons altos dos headphones e pelos altos devaneios que traz no bolso do casaco. Devaneios e fantasias, blocos de notas e moleskines, poesia e postais ilustrados, óculos de sol e batom de cereja que vão fazendo ricochete na grande bolsa que traz ao ombro e que carrega com toda a pose e que leva para todo o lado. Ombros de costas largas para o realismo e surrealismo que lhe vai ao peito. Mas na literatura faz também beicinho a longos e intermináveis romances e desmancha-se nas estórias ilustradas com tinta da china. A nós baralha-nos os pontos cardeais e faz-nos em bocadinhos quando deita o coração ao alto e se desfaz em generosidade. Com as palavras costuma perder-se. E com a ponta dos dedos escreve estórias que não são da carochinha mas que vão fazer muita gente ir à janela.