Cuzco I Perú
75Km até Machu Picchu - II

Primos, somos todos primos. Se o nosso guia se chama Primo e se nos diz que a partir de agora somos uma família, então devemos ser todos primos. Fácil. O que não foi nada fácil foi aquela primeira manhã de atalhos a pique e um calor desgraçado. Viemos preparadas para o frio, mas foram quatro horas a tirar camisolas. Ainda por cima estava tudo com as pressas, corpinho fresco, tudo a querer chegar primeiro, e era vê-los a subir a passo largo, sem pausas para respirar, nem sequer para tirar uma fotografiazinha, que a paisagem começava a ser tão bonita. Nós, pouco habituadas a estas andanças, íamos ficando para trás, com o Primo e com o Miguel, que não se calava no seu sotaque basco de quase sessenta anos e muitas histórias de outras montanhas. Já só lhe respondíamos com “hmm hmm”, que isto de falar nas subidas ainda nos deixa com mais falta de ar.

Chegámos ao almoço de t-shirt e cara vermelha. A mesa já estava posta e começam a correr as sopas de quinoa e legumes, chega uma travessa de pão de alho e passa-se ao prato de lombo salteado com batatas fritas, entretanto bebe-se o mate mentolado com as ervas que se devem ter apanhado pelo caminho. Não imaginávamos que se podia preparar um almoço tão delicioso num alto de um monte, onde as mulas têm de levar as bilhas de gás e carregar a intendência de cinco dias. Depois vai-se atrás da árvore e volta-se aliviadinho para a siesta de vinte minutos de botas de fora e pezinhos ao sol.

Já estamos a 3100 metros de altitude, o horizonte não pára de aumentar e à nossa frente o grande glaciar Soraypampa. é nas fraldas dele, a dez graus negativos, que vamos dormir esta noite. Mas ainda está tão longe, a imagem é de uma estrada em ésses que nunca mais chega ao fim. Estamos entre ladeiras e ravinas, entre socalcos de pasto fresco e montanhas empedradas, e ao longe, sempre longe, o glaciar. As quatro horas deste caminho pareceram-nos oito, estávamos exaustas, quase irritadas, porque o acampamento não era no quilómetro trinta e dois, era no trinta e cinco, e o Primo tinha prometido que era no trinta e dois. O sol já não nos bate nas costas, aqui está muito frio, agora já vemos as lonas azuis mas ainda estão longe. Quando quase nos falham as pernas, ainda temos que manter o equilíbrio para passar o rio sobre uns troncos bambos, atravessar mais pedregulhos aos tropeções, com a planta dos pés a suplicar descanso, até que enfim, entramos pela lona azul. Os primos que chegaram primeiro batem-nos palmas, sentam-nos no banco corrido onde mais tarde há mate, chocolate quente, bolachas de água e sal e pipocas. Estamos num abrigo plástico com oito tendas montadas dentro, aqui só estão dois graus negativos, mas se queremos ir lavar os dentes ou ver o céu mais estrelado de todos, descem oito graus e não se aguenta mais de cinco minutos. Por isso apertamo-nos à mesa enquanto se espera pelo jantar e se vai tentando aquecer com a conversa. às oito e meia da noite vestimos dois pares de calças, três pares de meias, deixámos ficar todas as camisolas e casacos e metemo-nos em dois sacos-cama. Não somos nós que estamos paranoicas, o Primo disse que era assim, e todos os pesadelos de morrer de frio na noite mais fria tornaram-se em alucinações transpiradas e com muita vontade de fazer chichi. Só que o Primo também tinha dito que se quiséssemos ir lá fora a meio da noite, tínhamos que abrir a tenda e deixar entrar ar frio durante uns dois minutos, depois tínhamos que ficar dentro do abrigo mais uns dois ou três minutos e só depois é que podíamos correr para os dez graus negativos. Caso ignorássemos estas recomendações, o perigo era ficar com uma paralisia facial dado o choque térmico. Então aperta-se até não se poder mais, e só quando o pior pode acontecer é que se trata de se abrir a tenda e já não há tempo para os esfriamentos faciais. Corre-se para os dez graus negativos com o cachecol embrulhado na cara e quando se volta à tenda aponta-se a lanterna e pergunta-se: “Estou bem?”.