Cuzco I Perú
L’ombelico del mondo

Lá no alto fica Cuzco. Abrigado pelos Andes, aquecido pelo sol que lhe bate na cara e coberto por um céu azul que lhe desnuda as feições. Cuzco deitado no Vale Sagrado dos Incas, resguardado por crenças e rituais. Cuzco em sobressalto, sacudido pela terra, sequestrado por um Império Espanhol cego e ávido de arrancar o Umbigo ao Império Inca. Cuzco saqueado e massacrado por Pizarro. Pizarro ergueu pedras por cima das já erguidas, construiu um Império à custa de outro Império, mas Cuzco está abrigado pelos Andes, aquecido pelo sol que lhe bate na cara e coberto por um céu azul que lhe desnuda as feições. Cuzco continua a ser o Umbigo Inca e isso ouve-se nas ruas que continuam a falar quechua, vê-se nas saias rodadas e nas figuras mitológicas que continuam a bordar nas roupas, nas alpacas que continuam a descer à cidade atadas por fitas coloridas. Cuzco hoje é a cidade onde uma ruazinha tipicamente colonial se chama Atocsaycuchi, onde a Choquechaca passa nas traseiras de um antigo convento, e toda gente sabe onde é a Qoricancha, a Tandapata, a Chihuanpata. Cuzco voltou a mudar o nome das ruas e não se esqueceu do sete sagrado, Sete Ventanas, Sete Angelitos, Sete Cuartones. Mas as grandes pedras espanholas levantam-se na Plaza das Armas, na Rua de Santa Clara, no Marquez, na Plaza San Francisco e em todas as paralelas e perpendiculares que fazem as ruas da cidade. E é esta fundição que faz de Cuzco uma das cidades mais bonitas por onde passámos.

Chegámos no final de uma manhã mal dormida para um início de tarde mal respirado, ofegante, sempre a precisar de pausas para entrar melhor o ar. Achávamos que já estávamos habituadas às alturas, mas Cuzco fica quinhentos metros acima do nosso nível de habituação. Foram precisos muitos mates de coca e injecções de açúcar para não nos subir o mal das alturas, mas das dores de cabeça, das insónias e de alguns sonhos alucinados não nos livrámos.

Cuzco também é paragem obrigatória para quem quer chegar a Machu Picchu, e os primeiros dois dias pela cidade foram passeio e preparação. Há muito que andávamos nervosas com a grande caminhada de cinco dias até à maravilha. Corremos todas as agências, regateámos soles, alugámos botas de trekking e passámos, finalmente, uma tarde no mercado a escolher camisolas quentinhas, luvas, cachecóis, gorros e meias para os menos dez graus que iríamos atravessar. O resto do tempo foi passado numa varanda de San Blás a ver arrefecer a cidade castanho-ruivo, a ver a enregelar a gente das arcadas, a ver acender as velas dos balcões e dos parapeitos das janelas, a ver o céu estrelar-se.

às quatro da manhã de quinta-feira saímos com cinco camadas de roupa e uma mochila para cinco dias. Seis dias depois regressámos para mais um dia de passeios solarengos com pequenos-almoços de sotaque castelhano e brasileiro.