Nazca I Perú
Querem um desenho?

Estamos cansadas da nossa própria forretice. Nazca foi a gota d’água no deserto. Mas desde quando podemos pagar mais de cem dólares para dar umas voltinhas de avioneta para ver uns geóglifos com mais de mil e quinhentos anos, cerca de oitocentas figuras zoomorfas, fitomorfas e geométricas, quase mil rectas traçadas com quilómetros de extensão, tudo desenhado no chão de Nazca. é claro que é inestimável, é património da humanidade, é super curioso, aliás, é tão curioso que ainda nem se sabe ao certo o significado de todas as linhas e desenhos. Os mais alucinados dizem que foram aliens, os pragmáticos dizem que são rotas que conduziram a reservas de água, e outros estudiosos falam em desenhos e traçados de constelações.

Mas como não há cá avionetas para nós, recorremos ao Jesus. O primeiro táxi-guia que nos apareceu com um preço bastante moderado e uns tantos recortes de guias e publicações que o recomendavam. Mas o nosso Jesus parecia estar mais preocupado com os seus galhardetes e vanglórias do que propriamente com a história das linhas. E depois o Jesus era o chato que parava em toda a berma-de-estrada para ver o redemoinho ao longe, o aviãozinho modelo 2012 que tem um piloto que “trabaja tan lindo”, daqueles que falam alto, de boca aberta e gestos abrutalhdos, que quase partia as cerâmicas à dedada, sabe-se lá de há quantos mil anos do museu da Maria Reich. Ah, já agora, a Maria Reich que no início da conversa foi professora do Jesus, agora já era amiga chegada, e a grande fotografia do museu, já agora, foi tirada por ele. Ai Jesus!

E nas entrelinhas, as linhas. Foi bonito ver os dois desenhinhos da torre de cinco metros construída pela Reich, mas todas as outras, perdoem-nos a tacanhice, são riscas no chão que chegam até muito longe e no meio daquele deserto todo, por mais protegido que esteja, só se vêem marcas de rodas, caminhos de cabras e a Panamericana. é claro que se não fossemos tão unhas de fome e tivéssemos ido na avioneta podíamos ter visto o macaco, o astronauta, o colibri, o condor, e outros tantos desenhos que ficam lá pelo meio.

E na mesma noite, subimos da linha do mar até aos cinco mil e oitocentos metros de altitude, por entre uma nevada que nos levou até Cuzco.