San Cristobal de las Casas I México
Viva Mexico, cabrones! - III

O que fazemos? Skyscanner, E-dreams, Avianca, US Airways é tudo excessivamente caro para os próximos dias. O Jorge e o Bunty estão na Colômbia à nossa espera, a Maria já tem uma chave para nós em Cartagena, o João está em Bogotá a contar connosco e nós estamos sem saber o que fazer em Tulum. Com tanta contrariedade não podemos deixar de estar felizes, afinal ainda estamos no México e a cara que há dois dias estava pálida, começa a ficar rosadinha. ADO. Porque não? Porque não voltar atrás vinte horas, recuperar tempo perdido, pensar no que vem a seguir, e a seguir até pode vir a América Central, do Panamá à Colômbia é um instantinho e sai mais barato. E é claro que o ponto intermédio para tomar todas as decisões é San Cristobal. Voltamos.

Sim, vinte horas, de bancos demasiado inclinados que nos fazem derrapar, ieiiiii, curvas aceleradas, wooow, o motorista tresloucado – dá-lhe, as paragens bruscas e toda a alegria de, desta vez, voltar para San Cristobal.

Mas o que tem San Cristobal de tão especial? Tem a nossa casa do México. Uma Porta Velha escancarada, com gente de coração escancarado também e uma alminha desconhecida que só pode ser o México na gente. Tem qualquer coisa muito simples, muito puro, muito verdade, tem qualquer coisa de familiar também, essa coisa muito simples, muito pura, muito verdade. E quando se chega a casa sem se ser esperado, despenteiam-se cabelos, desapertam-se botões, ficam as fraldas todas de fora com tanto abraço e tanta balbúrdia.

é Sexta-feira, o Dani já foi pôr as cervejas no congelador e voltam-se a ligar os ipods às colunas. Mais tarde El Revo, um bar onde sempre se desviam as mesas e sempre se faz revolução. Foi lá que fomos parar na sexta-feira, como também no Sábado, e todas as terças-feiras de salsa, todas as quartas-feiras de reggae e todas as quintas-feiras de tudo. Já falamos com o porteiro, dançamos com os donos e sabemos de cor todas as caras que também já nos sabem de cor. E porque é Sexta descobre-se o Madre Tierra, aquele antro de chão pegajoso e música em directo, como eles dizem por lá. A freak que dança salsa com o rastafári, o mexicano que faz mosh com a turista e onde sempre acaba a dueña de voz rouca e cabelos compridos grisalhos, em cima do palco, a cantar ou a dar sermões sobre os direitos das mulheres.

E nas manhãs voltamos ao senhor do super-mercado, que já nos conhece, para comprar cenouras e mais verduras para a sopinha, volta-se ao café da frente, ao americano de sempre, sentamo-nos outra vez na cozinha com a Maurita, com o Checo e com o Mauríco, sempre a ter que fazer, e acabamos a fazer camas e a lavar casas de banho, só pelo gozo que dá ajudar. E depois a tarde passa-se a escrever, a beber outro café no Surreal, a ir comprar chocolates com a Josephine, a dançar na recepção com a Sara, com o Dani e com o Fernando, a ver tutoriais de salsa no youtube para não fazer má figura, a convidar hóspedes para o almoço, que agora é o Adrian a cozinhar, a andar de scooter com o Omar, a ir dar um beijinho ao Vargas que está na Mezcalaria e outro ao Hector que está no Baruva. E quando chove fazem-se bolos e outros doces para o filme do sofá, mas mal há uma aberta vai-se à viña, que cada copo de vinho dá direito a uma tapa, que é tantas vezes o nosso jantar.

Duas semanas se passaram assim, com o Aniversário de Meio Ano da Puerta, o não oficial e o verdadeiro, com os anos do Omar, com a chegada de mais hóspedes, todos os dias, com o furacão da Bárbara pelo meio, a deixar-nos ficar mais hoje, amanhã, depois de amanhã, até que chegou Domingo, o nosso último Domingo – “Mexico magico, Mexico tragico”.

Não é porque estamos paradas há mais de duas semanas que custa a fazer a mala, não é porque temos a roupa toda espalhada, a mochila desventrada, a tralha toda por aí. Custa muito fazer esta mala. O Fernando vem dar um abraço, o Hector enrola o casaco, fazemos a mala lentamente, cada uma à sua vez, até só ficar a cama bem feitinha, com a roupa do dia seguinte em cima, como se amanhã voltássemos à escola depois das férias grandes. Hoje há fogata no jardim, assam-se marshmallows, a música ficou esquecida num álbum blue, a conversa não sai, não há muito a fazer. Amanhã às sete e meia da manhã vamos para a Guatemala. Engolimos em seco. Depois temos dez dias para chegar à Cidade do Panamá. Engolimos em seco. Reza a lenda que quem vai a San Cristobal de Las Casas sabe sempre o dia em que chega, mas nunca sabe o dia em que parte. Por duas vezes que voltámos à casa, mas amanhã sabemos que vamos. Voltamos?