Las Vegas I USA
Divina comédia

São seis da tarde, “shine brigh like a Diamond”, filas de carros para estacionar, valetes para estacionar os carros, hotéis grandes, hotéis luminosos, hotéis clássicos, néons, pisca-piscas, cifrões, muita gente de palhinha na boca, muita gente. Mal saímos do carro já temos areia nos olhos, tempestade de areia para os olhos, que venha ela. Cabra-cega, esconde-esconde, apanhada, macaquinho do chinês, de imitação e das réplicas. Cidade maiores de dezoito, parque das depravações....piiiiiii....cidade bolinha vermelha ao canto.

Estamos num quinto andar de um hotel com nome de prisão, The Quad – corredores intermináveis, elevadores claustrofóbicos, janelas em filas vezes muito, casino na cave, sala de póquer no primeiro andar, luzes baixas, alcatifados, as máquinas.

Entramos no império do mau gosto, dos feios, gordos e maus. Cigarros no canto da boca, copos de whisky, rugas, peles esticadas, maquilhagem excessiva. é a concentração das pirosas, das pindéricas, é o espectáculo da banha de fora, do decote empinado, dos rabos nas costas, dos depravados, das oferecidas, dos galãs de elevador. Encontro anual dos divorciados, dos descasados e das despedidas de solteiro. é a paródia, é a pândega, é o espalhafate. A insanidade está instalada, há gente alucinada pelas ruas, a Torre Eiffel está ao lado do Arco do Triunfo, Manhattan fica a dois quarteirões, o Cairo está mais para o fundo e há gôndolas a marinar numa piscina azul. The show must go on – David Coperfield, Cirque du Soleil, Blue Man Group, Beatles Love Show, o show da água a cada meia hora.

Mas é nas caves, nos rés-do-chão, no número G que corre o sangue à cidade. São milhares de roletas a girar simultaneamente, na esperança dos 3 de setes, dos três de cerejas, dos 3 todos em linha, são ajuntamentos à volta das mesas de póquer, à volta de croupiers transvestidos de Michael Jacksons, Amy Winehouses, Lady Gagas, Princes. Há apostas cegas, há apostas de cavalos, há apostas de tudo, e no entretanto servem-se cognacs, cocktails, sumos de frutas. E o sangue continua a correr, as slots continuam a rodar, as fichas espalham-se pelas mesas, os dados lançam o azar. Perdemos tudo, dois dólares no Flamingo, dois dólares em Manhattan. Azar.