Grants I USA
Pela estrada fora

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A estrada que já não existe, Route 66, esfrangalhada, feita 40, terra batida, 110, 15, paralela esburacada de auto-estrada. Enganamo-nos, retrocedemos, voltamos atrás, no colo o mapa, no colo um atlas de estradas, no colo aplicações com geolocalização. A Route 66 já não existe, mas está imortalizada pelos carros que a perseguem, pelos motards que a desafiam, está percorrida em livros, rodada pelos filmes, gravada nas letras das músicas.

Arizona, New Mexico, Arizona, California. Não chegámos sequer a meio do caminho. Não chegámos ao Texas caramba, nem vimos os Cadilacs de Amarillo, não passámos a ponte de Missouri, não tivemos o prazer de pronunciar “Oaklahoma”, não chegámos a Chicago. Arizona, New Mexico, Arizona, California.

A nossa 66 começou quando descíamos o Grand Canyon – Williams, Historic Route 66 – a primeira placa castanha de outline branco, aquele ícone que todos sabemos estampado no alcatrão. Estamos eufóricas, até andamos às voltinhas, só pelo prazer de meter as rodas nesta estrada, só não fazemos peões porque não sabemos. Mas é preciso meter os pés na estrada também, entrar nos diners, dormir em motéis, tomar pequenos almoços de panquecas com syrup e refill de café. Fazemos tudo, check. check, check.

E volta-se à estrada – Williams, Flagstaff, Winslow, Hoolbrook, Chambers, Gallup. Cidades grandes, cidades pequeninas, cidades feitas, cidades fantasma. Arizona, New Mexico, Two Guns, Cowboys, Jack Rabbit, trading posts, mais motéis, néons e bombas de gasolina. Quantas não são as paragens bruscas, as marchas-atrás, os dedos apontados só para tocar nas roulottes oxidadas, para saltar arames farpados rasteirinhos, dos ranchos sem cowboys, mas de pistolas em riste, só para entrar no motel do Cars, que afinal são teepee tents em cimento. Um buraco de meteorito, desertos pintados, florestas petrificadas, neve, frio de rachar, ventania, vendaval, New Mexico. Dormimos em Gallup, numa América de índios, pele escura e cabelos compridos.

Acordamos com os comboios que apitaram toda a noite. Continuamos a seguir a mesma linha, lado a lado com comboios de vagões sem gente, a linha do Dylan e do Cash, “a slow, slow, train coming up around the bend”. Mais uma cidade do Novo México, desta vez com menos índios e mais mexicanos. Grants, entramos para beber um café e saímos com um taco. Saímos da cidade e entramos numa sucata de mustangs, cadillacs, chevrollets, fords, corvairs, mercuries, chevies, 69 coupés, f100s, soubéssemos nós mais de carros e perdíamos o dia por lá. Mas é em Vila Cubero, em frente à casa onde se diz que Hemingway escreveu “O Velho e o Mar” que voltamos para trás e regressamos ao ponto onde a nossa 66 começou. Agora a trajectória é outra, rumo a Palm Springs, mas ainda há a 66 de
Sellingman, Ash Fork , Peach Springs, Kingman, a primeira marca perdida no alcatrão, mais cidades fantasma e outras cidades fantoche, Monroe, Presley, cabeleiras e vestidos de épocas, mais clássicos, mais bombas de gasolina e trading posts, mais os diners, mais néons. Fazemos uma pausa de três dias e recomeçamos no primeiro Mc Donalds em San Bernardino. Voltamos a seguir a linha até à linha da Costa. Santa Mónica, LA.

Trinta horas de estrada, cinco depósitos, dezassete cidades, três estados, quarenta e seis fatias de pão de forma integral, duas embalagens de dez garrafas de água, oito barritas de cereais e manteiga de amendoim, Johny Cash, Bob Dylan, Magnetic Fields, Tame Impala, Cartola, Talking Heads, Yo La tengo, não sei quantas paragens de dois minutos, centenas de camiões, dezenas de comboios, oitocentas e cinquenta e três fotografias.