Death Valley I USA
Natureza morta

Já estamos na sétima hora de viagem. Entramos pelo deserto, o sol já se pôs. Nada disto estava para acontecer. O vento lá fora fustiga a direcção do carro, a estrada está quase deserta, temos o depósito no fim da reserva e ainda faltam trinta milhas, quarenta e dois quilómetros. Nenhuma luz no horizonte, as estradas americanas têm ainda este problema de serem assustadoramente mal iluminadas. Não estamos em pânico, estamos a entrar.

Sem se saber muito bem como, passada meia hora de velocidade controlada e pânico instalado, apareceram umas bombas. O vento quase leva as portas, quase nos leva a nós. Está um calor estranho, temos areia nos olhos. Atestamos o depósito e seguimos para Ridgecrest – a cidade mais próxima do Vale da Morte. Na manhã seguinte deixamos o oásis de McDonalds, Wendies, Pizzas Huts, Burguer Kings, Dennies, móteis Super 8, Days Inn, American Best Value e seguimos em longas linhas rectas em direcção ao vale.

Esta é uma viagem de abandonos e cidades ferro velho, de condutas de gás, de fábricas descarnadas na aridez de rectas hipnotizantes e horizontes vastíssimos, muito para além de todos os outros horizontes. Viajamos numa escala cromática de cores pastel, de tons terra, oscilamos das imensas planícies aleitadas às escarpas agudas cor de tijolo. A cada elevação de estrada, um espanto diferente. Andamos espantadas sim, estonteadas, de boca seca. Nunca a natureza nos pareceu tão morta.

Abaixo da linha do mar estende-se um deserto de sal, a terra mais quente do mundo chega aos cento e vinte graus e mata. Nós chegamos aos quarenta e doeu.
Mas acima da linha do mar há explosões, há cor por todo o lado, há sofás, micro-ondas, camisas vermelhas, todos suspensos – Zabriskie Point – o Antonioni deu cor ao vale da morte, esse ponto de pigmento monótono e estranhíssimas formações de argilitos. Mas é preciso passar por este inferno, por este purgatório, para chegarmos ao paraíso de Dante, ou talvez tenhamos feito o caminho todo ao contrário - Dante’s View, lá do alto o vale é fora deste mundo.

Mas a divina comédia fica para o dia seguinte.