Tóquio I Japão
Sayonara

São os últimos dias para dar aos pauzinhos, para andar ao encontrão, para sacar sorrisos de olhos em bico, para não perceber patavina. São os últimos dias a sorver noodles e a penicar arroz, a salpicarmo-nos de soja, de agridoce e de picante. São as últimas visões dos pagodas, dos templos e dos shrines, dos monges, dos incensos e dos budas gigantes. Mas são os primeiros do sushi, da soba, das gyosas, os primeiros da manga, dos videojogos, do psicadelismo. São os nossos primeiros dias de primavera, os primeiros com cerejeiras em flor, piqueniques e amigos de casa que vêm ter connosco.

Agarrámo-nos à Nuna, ao Jirko, à Luisa, ao Daniel e ao Rui Jorge para os abraços, para os desabafos, para as conversas tontas, para matar saudades, para o presunto, para o leitinho com café português e para as manhãzinhas da Próalimentar. Agarrámo-nos para que nos livrassem dos mapas, dos guias, dos planos de metro e dos outros planos todos. E seguimos com eles, sem hesitar, à confiança, tão cegas como a amizade.

Dividiram Tóquio por bairros, por quadrantes de experiências, pelas redondezas dos imperdíveis e quadradinhos do Lonely Planet. Dividiram-no por dicas, por diz-que-diz-ques e caprichos de cada um. E porque parece que vemos os mesmos filmes e lemos os mesmos livros, só podíamos começar por Shibuya, a atravessar uma diagonal do cruzamento mais falado do mundo. Mas não a cruzámos de rajada, nem a passo largo, foi aos disparos, aos avanços e às arrecuas, fomos aqueles últimos, os que correm quando vira o sinal e se vêem sozinhos no meio da passadeira, os que sempre ficam bem num filme de stop motion.

Fomos também câmara lenta no fast forward da cidade, em longos e demorados passeios de pausas breves e semi-breves, de olhares retidos, vidrados nas montras, suspensos nos templos, hipnotizados nos jardins. Passeámos sem horas pelas horas contadas de quem passa – tropas de fato e gravata e máscara cirúrgica, armados de pastas de mão e touch screens. Soldadinhos de escritório, a marchar, a marchar, em linha recta nas passadeiras, em sentido nas escadas rolantes e em alinhamentos de sono nos assentos do metro. A marchar, a marchar brancas de neve, sete em linha, espingarda ao ombro, a marchar em Ropongui, às duas da madrugada. Desfilam os pintas, mal combinados porque isso é que fica bem, novos sofisticados, cheios de pormenor e subtilezas, eles não marcham, são os objectores de consciência. Metem os pés para dentro, as bonecas, saia de tule e soquetes extravagantes, sai-lhes a voz abonecada, têm as iris dilatadas das lentes azuis e verdes forte, arrastam os saltos altos, dois tamanhos acima, a chinelar, a chinelar entre o gótico e a meninice.

As máquinas, os manípulos, os botões, os ecrãs multicolores, interfaces electrónicos que intermedeiam e intercedem nos despiques e disparos do outro lado dos ecrãs. Pavilhões de hiper-realidade, jogos e consolas, consolo dos amontoados de japoneses filados numa superemocionante ficcão. Entramos no jogo, nesta virtualidade de heróis, campeões e recordistas para sairmos do outro lado, nos ecrãs gigantes do Dragon Ball, do Evangelion, das Navegantes da Lua, que em ecrãs mais pequenos fazem poses só para adultos – avenidas de manga e anime, vitrines de obsessões e extravagâncias, livrarias de quadradinhos e bonecas insufláveis.

Prédios altos, arquitectura do espelho e do aço, do vidro e do metal, cultura do arranha céu, como nas grandes cidades asiáticas. Mas à noite as luzes de Tóquio são mais eléctricas, têm mais voltagem, mais saturação, fazem coreografias, acendem, apagam, piscam, projectam-se, retro-projectam-se, moldam-se nos mappings e vídeo-mappings e só se apagam de madrugada, quando o sol começa a romper e o atum já está estendido na marquesa de corte, no mercado do peixe maior do mundo. Nunca vimos atuns tão grandes, tantos peixes, moluscos e crustáceos, tantos a revolver-se, meio vivos, meio mortos, todos frescos, para os mercados e supermercados de todo o mundo.

Agora o passo é rápido e ensonado, temos de ir fazer a mochila, eles já ficaram lá atrás, em Quioto, nós, sozinhas, seguimos para o outro lado.