Bohol I Filipinas
Montes, macacos e Avé Marias

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Bohol são montanhas de chocolate, rios cor-de-mar, triciclos missionários, jeepneys crentes, macaquinhos de olhos esbugalhados, vegetação farta, fora de controlo, árvores exóticas, aldeias perdidas, campos de arroz e bandas sonoras diferentes a cada lugar.

Erro crasso – Panglao. Iludidas pela ideia de um mar azul fundo de piscina, praias de areia branca, esplanadas e churrascos a céu aberto, fomos directas à pequena ilha ligada por duas pontes à ilha mãe Bohol. Mas quando chegámos chovia que Deus a dava, enchia-se a praia de algas e retinham-se os barcos-aranha na primeira linha do mar, já os turistas, nem por isso arredavam pé. Respingadas de lama até aos joelhos, a saltar pocinhas “Ai Jesus”, patinávamos meia hora, da nossa palhota nos quintos até ao peixe grelhado, à música ao vivo, ao cheirinho das pizzas, ao karaoke e aos turistas de janela para o mar.

Só quando voltámos à ilha mãe é que percebemos que nem só de praias paradisíacas é feita uma ilha. Parecia que estávamos a bordo do Erebus, a murmurar com o Capitão Benjamin Williard, em pleno Apocalypse Now (sim parte da rodagem foi nas Filipinas) – o rio estreito, parado, as palmeiras densas a flanquear as margens, as passagens sinuosas, as eminências de quedas de água e as casinhas de madeira encostadas aqui e ali (um extra feliz). Mas como nem estávamos no Apocalise Now, nem no Erebus, fizemos o rio Loboc num barco buffet-música-ao-vivo, com turistas esfomeados em plena hora de almoço. Tudo se atropela, tudo se engalfinha, à volta do buffet ao centro. Não há destreza como a fome, mãozinhas furonas, colheres en garde, pratos atestados, não vá acabar o caranguejo, o camarão, o peixe grelhado, que os pitéuzinhos são sempre os primeiros a ir. E só quando tudo já está instalado de prato à frente, é que o artista da rapsódia abre a goela. Tem cinquenta e tal anos, chapéu de palha, camisa às palmeiras e uma voz de rouxinol, um pinga-amor dos anos setenta, oitenta e noventa.

Atracámos nas histórias encantadas dos montes de chocolate, hobbits, duendes e aberrações do fantástico. Quase que podíamos ver casas pequeninas, portas redondas e pontezinhas de madeira sobre riachos imaginários, nestes montinhos arredondados que se espalham como cogumelos até se perderem de vista. E até podem nem haver hobbits nem duendes, mas há pequenas aberrações de olhos abertos e arregalados, palmos de bicho, macaquinhos a dormir à luz do dia nos ramos das árvores, agarradinhos de fazer aflição.

E dizemos mal dos nossos pecados, quando temos de voltar à nossa praia de turistas e perder a adrenalina de passar montes em ziplines, dormir em florestas tropicais, correr aldeias de Jeepneys grafitados com cristos e nossas senhoras, e de não poder passar horas na berma da estrada, a tomar nota de todas as orações sarapintadas nas traseiras dos triciclos de Bohol.