Malaca I Malásia
À procura de fantasmas

“Disse-me um adivinho” que Malaca era um lugar de fantasmas, de almas penadas a sussurrar entre paredes, a rondar por ruas desertas ou pelos morros silenciosos da cidade. Velhos espectros a reclamar território e tempo perdido aos vivos. Basta esperar pelo anoitecer para os ouvir murmurar em português arcaico, mandarim, malaio, em holandês, britânico, em japonês.

Ouvem-se carros a passar, buzinadelas, o sonoro dos trishaws, o inglês, o chinês, o japonês, o coreano dos turistas, a língua híbrida dos locais. Ouvem-se as demonstrações do último grito da super-cola-três, das panelas antiaderentes, dos agrafadores de costurar. Ouve-se a música alta do Hard Rock novinho em folha, do Karaoke do bistrôt e alguns clássicos dos 60s nos bares em frente ao rio. Pode parecer caótico, barulhento, um chinfrim, mas até não, é tranquilo, é quieto, só que já não se ouvem os sussurros do Terzani, os sibilos da História.

Chegámos lá há mais de quinhentos anos com dezoito caravelas e oitocentos homens de peito cheio, prontos a tomar a cidade e a saqueá-la até que a ganância os cansasse. Chegámos a encher a três caravelas com os mais belos tesouros, segundo Afonso de Albuquerque. Mas no final ficámos a ver navios - uma forte tempestade fez com que naufragássemos ainda tão perto da costa. E só centenas de anos depois, depois de intermináveis buscas, se descobriu enfim o paradeiro do saque. Agora parece que se abriram negociações a ver a quem pertence o tesouro – se a nós portugueses, se aos extorquidos malaios. Obviamente que estamos a torcer por Portugal. Mas a nossa presença não foi só esta coisa feia de tirar o que é dos outros. Ao que parece os dias dourados de Malaca foram durante a época portuguesa. Depois vieram os holandeses, depois os ingleses, depois os japoneses, depois os ingleses vieram outra vez e depois a Malásia tornou-se independente. E todos deixaram o seu legado de estilos, arquitetura, crenças, cores, comida, nomes próprios, apelidos, histórias e fantasmas.

Mas as nossas marcas vão se esbatendo, vão-se apagando os Costas, os de Mello, os Jorges e as Bárbaras, vão-se comendo as últimas ou as primeiras sílabas do português de há quinhentos anos, que nunca chegou a evoluir – amanhã é amiang, amarelo é marelu, fazer é fazeh, filha é fila, calor é kalo, todos os vês são bês – noiba, kabalu, bai, lehba, palabra – as terminações são hilariantes – anu, fogu, maridu, bairu, jenti, grandi, padri. Dos provérbios só percebemos três: kachoru ladrah nadi murde; kuspi na seu, kai na rostu, faka, garfu na mang. Mas o bom garfo português já não lhes está na mão, já se deixou de comer o bacalhau que misturavam com o arroz, com o azeite e com as azeitonas. Agora no Lisboa, nem referência fazem ao que poderá restar do nosso sabor. Procuramos no menu e só depois de perguntarmos é que percebemos que o chicken curry, o baked fish, os asam prawns e o sambal squeed são para eles os pratos de origem portuguesa. O museu do Portuguese Settlement está fechado, está doente, tem setenta e tal anos e está no hospital. Mas ainda há as festas do San Pedro, e é ao Portuguese Settlement onde se vai passar o Natal. Pela cidade a Famosa ainda é o mais famoso monumento, e os chineses continuam a tirar fotografias ao Vasco da Gama e ao Afonso de Albuquerque a achar que são dois amantes; o nosso Forte está rijo, a nossa caravela continua atracada à cidade e a igreja de São Paulo continua a ser a mais alta.

Foram três dias a passear junto ao rio, à espreita dos lagartos gigantes e à cata das casas vermelhas dos holandeses. Dias de calor a comer bolas de arroz com tiras de frango, a dar três passos e a ficar abafadas e a não ter nem mais uma peça de roupa para tirar. Já fantasmas, não ouvimos nenhum.