Kuala Lumpur I Malásia
Kuala Lumpur em três telhados.

Entra-nos a Maria e o Stefan quarto adentro. Abraços com mês e meio de saudades e conversas suspensas que guardamos para mais logo. Quando se junta uma colombiana, um alemão e duas portuguesas em Kuala Lumpur é natural que à meia-noite ainda não se tenha escolhido um sítio para jantar. Depois de passarmos pelo colombiano de fusão japonesa, pelas tapas espanholas, pela pizzaria, termos ouvido quatro vezes na mesma rua o Gangnam Style, parámos no último restaurante-bar-discoteca. No final estávamos roucos. Um jarro de shaken margarita e um canto de balcão com cadeiras altas foi o que bastou para às cinco da manhã acharmos que ainda eram duas.

Com o Stefan e com a Maria KL foi um pequeno luxo. Pequenos-almoços Illy e Lavazza, sessões de tortura em shoppings a vê-los comprar MUJI, Zara, Uniqlos, passeios por bairros de lojas vintage, cafés pintarolas, cosmética coreana e mercearias gourmet, jantares melhorados, margaritas e sempre o canto do balcão do Havana para o final das noites.

Mas o que nos voltou a juntar, mês e meio depois em KL, não foram os pequenos luxos. O encontro foi marcado para o festival hindu Thaipusam. Depois de dançarmos até às quatro da manhã, metemo-nos num táxi para as Bathu Caves. Foi como mudássemos de realidade – milhares de devotos ao deus Murugan subiam numa procissão de vasos de leite à cabeça e pés descalços, piercings de pequenos vasos, frutas, cigarros agarrados às costas, uns rebolavam, outros carregavam andores, furavam a língua, furavam a cara de um lado ao outro. Cada um carrega a sua promessa, manifesta a sua fé, sublima a sua devoção. São cinco da manhã e soam tambores, cantam-se responsos, rapam-se cabeças e cobrem-se de pó amarelo. Há rituais e transes por todo o lado, reviram-se os olhos, grita-se, estremunha o corpo, exorcizam-se os males. Cheira a leite, a incenso e a suor. A subida até ao altar é íngreme e apertada pela massa de hindus fervorosos. Há momentos em que o impacto da realidade é tão forte que é como se entrássemos noutra dimensão, noutro tempo, noutra extensão de nós próprias – fazemos parte, submergimos naquele rumoroso silêncio e afundamo-nos na multidão.

Há amizades que se plantam num lugar e crescem noutro. Depois da descoincidência no festival, às seis da tarde de Domingo estávamos a beber cerveja e petiscar dumplings e wantons debaixo de um guarda-sol à chuva. Depois de uma noite à conversa em Georgetown, o Luca veio ter connosco a KL. Attraversare a cidade com o Luca é parar em todos os mercados, comer comida de rua, experimentar óculos de sol, marcar pontos de encontro e desencontrarmo-nos, é não subir às Petronas, é entrar em todos os centros comerciais só por causa do ar condicionado, é falar de Moretti, do Terzanni e dos Arcade Fire. é em China Town dizer adeus ao táxi que leva o Luca de volta a Pisa. é ficar triste.

Lá de casa vêem-se as Petronas, os grandes arranha céus, as montanhas e a larga via que atravessa a cidade. Estamos na casa do Filipe, sentados à volta de uma mesa a comer pizza. Somos nós e mais sete portugueses. A Clara e a Catarina contam-nos Hong Kong, Hong Kong puxa Macau, às tantas estávamos no Laos, no Vietnam, nas ilhas da Tailândia. Quem vive em KL farta-se de viajar, está sempre a fazer planos, a encontrar fins-de-semana e feriados para dar o saltinho. Gostámos tanto do Filipe e da casa do Filipe que no dia seguinte não saímos de lá, acordámos tarde, escrevemos, fomos ao supermercado do condominium, comemos hambúrgueres no bar do condominum e só ao final do dia é que saímos. Vestimos os vestidos mais amanhadinhos e fomos ao bar de um quinquagésimo sétimo andar, para ver as vistas. As Petronas. Dois soberbos minaretes de 88 andares e 452 metros que nos lembram templos hindus mas a quem as arquitectou inspiram o Islão. Que importa. São assombrosas, magnéticas, colossais. Nunca as perdemos de vista. E Kuala Lumpur foi passado assim, de cabeça no ar e passeios a muitos pés.