Kratie I Cambodja
Same same, but different

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Não é que as coisas deixem de ser bonitas, nem que as pessoas deixem de ser sorridentes ou de nos conquistar, não é que o fried rice deixe de ser gostoso, nem os noodles uma comidela. Não é que os pores-do-sol deixem de ser grandes momentos alaranjados, nem que o Mekong seja menos forte, menos bravo, nem mais estreito, nem que as aldeias estejam menos viradas para a estrada, nem são tão poucas as minority villages, nem menos suspensas as aldeias flutuantes. Não é que os mercados sejam menos coloridos ou mal cheirosos, nem que os carrinhos e as banquinhas de rua deixem de se ver em todo o lado, nem as motas deixem de ter menos carga, ou menos cor, nem as bicicletas menos crianças, nem as escolas menos uniformes. Não é que deixe de haver gaiolas em todos os rés-do-chão, nem cadeiras de plástico azuis e vermelhas por todos os passeios, nem leite condensado em todos os cafés. Não é que se deixem de se ver agachadinhos a descansar, nem redes penduradas em cada esquina, nem telhados de palhinha, nem pontes de bambu, nem barcos de madeira às cores. Não é que deixem de nos impingir bugigangas e tours por toda a parte, nem deixem de haver ajuntamentos de backpackers a viver tudo de uma só vez a cada paragem. Não é que dois meses pela Indochina seja muito tempo, nem tantos foram os lugares por onde parámos, mas damos por nós a identificar mais semelhanças do que diferenças – é o tal “same same, but different” com que acabam todas as conversas, seja entre turistas, seja com os locais.

Ora chegar a uma ilha, no meio do Mekong, com dois quilómetros de largo e seis ao comprido com tudo isto lá dentro, não é inusitado, mas é muito bonito. E é ainda mais bonito fazer coisas diferentes em sítios tão parecidos. Em Koh Trong tivemos cama, comida e roupa lavada na cabana da Sra. Sovanni e do Ton – um colchão com um mosquiteiro na sala, uma paparoca de carne picada e beringela e a sopa dos pobres, como lhe chamam, para o jantar. De manhã faz-se outro passeio, de bicicleta, desta vez com um convite inesperado. Da sala de aula acenam-nos para que entremos. Hesitamos. Acenam-nos outra vez e entramos. Levanta-se a turma de uniformes azuis e brancos, o professor dá ordem ao catraio para limpar as duas cadeiras que se arrastam para nós. De frente para a classe de uniformes azuis e brancos, prossegue a aula. O professor escreve no quadro verde, os miúdos, divididos entre o quadro e as duas estrangeiras da frente, continuam silenciosamente a copiar o que está no quadro. Que raio. Então chamam-nos para a aula, sentamo-nos e mais nada? Nem uma apresentação, nem um como te chamas, de onde é que vens? Nada? Aproximam-se da porta outras crianças de outras salas que querem ver as estrangeiras. Há um nervosinho impaciente no ar. O professor enxota a catraiada. Começamos a perceber que está na nossa hora, mas mal nos vê levantar, pára de escrever no quadro, leva a mão ao bolso das calças, saca do maço de cigarros, não queremos acreditar, os putos olham, o professor já está a acender os cigarros, um para cada um, como se tudo isto fosse de boa educação, de cortesia, exemplar. Ficamos de cigarro na mão, sorriso embaraçado, damos um último adeus e pisgamo-nos dali, a apagar os cigarros no recreio, que isto foi muito feio. Cá fora é intervalo, as meninas saltam ao elástico e os meninos encavalitam-se nos berlindes. Os mais comilões chupam os dedos salgados das batatas fritas em triângulos, em palitos, de ketchup ou de frutos do mar. Cheias de pedalada, montamos as bicicletas e fazemo-nos às vacas, às galinhas, às palmeiras, aos arrozais, às aldeias flutuantes até ao barco que nos leva de volta a Kratie.

Kratie é mais uma pequena vila charmosa, francesa, de estilo colonial, como diz no Lonely Planet. Aliás, o Lonely Planet farta-se de botar charme nas pequenas vilas curiosas da Indochina. Qual estilo colonial? Como é que ainda caímos na esparrela? Mas Kratie vale a pena, não pela cidade, mas pelo porto que leva à ilha, pelos 15 quilómetros até aos golfinhos do Mekong e pelos 15 quilómetros e pouco até Kampi. E o que é que golfinhos a saltar no meio de um rio e um parque de merendas suspenso em águas agitadas têm de parecido com tudo o que vimos até agora? Nada.