Saigão I Vietname
Alucinado Saigão

Vamos chamar-lhe Saigão. Só porque é mais forte, tem mais corpo, mais tensão, porque era assim nos filmes, porque o “ai” e o “ão” nos são mais queridos, porque estamos cansadas de tanto monossílabo ho-chi-min-ci-ty, ha-noi, da-lat, nha-trang, hoi-an – Saigão! Dizemo-lo de boca cheia, com a boca toda. Ah, Saigão.

O nosso Saigão começou na “Indochine”, entre o torpor do ópio da Catherine Deneuve e o amor temerário da doce Camille, Saigão oculto, na discrição de um “Quiet American”, Saigão desejo, nas formas de um vestido branco, apertado e desapertado pelo “Amante”, Saigão vibrante, extravagante, excitado às espertinas cordas vocais de um “Good Morning Vietnam”, Saigão enlouquecido, no quarto estilhaçado do “Apocalypse Now”. O nosso Saigão reteve a moleza de uma cerveja de fim-de-tarde, a inocência das gargalhadas frescas pelas grandes avenidas, os olhares cúmplices dos becos clandestinos, as formas de um vestido branco e de um vestido preto, o excitex de um dia inesperado e a maluqueira de um fim-de-mundo.

Alucinado Saigão, rebentou-nos nas mãos como uma bomba, uma descarga eléctrica, um desfribilador para o coração. Contra-atacámos. Fomos directas para a linha da frente dos backpackers, para o campo de batalha dos restaurantes, da música alta, dos turistas espalhafatosos, dos cabelos loiros, dos narizes compridos, das calças à Aladino. Depois de uma semana de ermitagem por vilarejos e cidadezinhas de cimo do monte, queríamos balbúrdia e zaragata. Fizemos dele o que quisemos. Rua acima, rua abaixo, sem programa, nem agenda, sem problemas de consciência. Atrasámo-nos, faltámos-lhe, não nos apeteceu. O Saigão foi todo nosso.

Trocámos os “must see” por caminhadas sem rumo, dois headphones, um adaptador e a mesma música. Desafinámos, como só se desafina quando o som está alto de mais e a voz já não se ouve, a plenos pulmões, felizes da vida, a cantar “oh I wish had a boyfriend, I wish had a loving man in my life...”, “deixe-me ir, preciso andar, vou por aí a procurar...”, “le temp est bon, le ciel est bleu...”. Trocámos a objectiva pelo olhar vago e despreocupado. O Saigão não é para grandes fotografias, é para se engolir com os olhos. E invertemos os papéis, desta vez, fomos nós a ditar o preço, a apregoar a mercadoria, a correr atrás do freguês – “Santa Claus ballons, one 30 thousand, two 50”. Em três horas vendemos 20 balões, e eles riam a bandeiras despregadas com a bazófia das turistas, trocavam-se pastilhas elásticas e bolinhos de leite por balões do pai natal, e mandavam-se passear os “foreigners” trombudos, que nunca perceberam o gozo de andar por aí com balões atados aos pulso.

Estava guardado há mais de quatro meses, como uma surpresa doida por sair cá para fora e espantar os maus humores de almofada. Ela chorou, vestiu-se linda, de lenço à cabeça e óculos de filme. Há muitos presentes de aniversário, mas se lhe perguntarem o que é que recebeu nos anos, ela vai poder dizer, caramba, “o Saigão!”

Rebentem-lhe com tudo, tomem-na de novo, mudem-lhe de nome, ergam-lhe arranha-céus, encham-na de focos fluorescentes e luzinhas a piscar, estraguem-na de mimos e zonas caras, embriaguem-na com cerveja barata e banquinhos de rua, enlouqueçam-na com trilhões de motorizadas e turbas de gente malbaratada, amem-na, idolatrem-na, atraiçoem-na, mas nunca lhe tirem a alegria.