Bangalore I Índia
BangaLar

Chove a cântaros. Perdemos a estação e apeamo-nos no final da linha, estamos algures em Bangalore. A mochila pesa muito, o céu está carregado, não vai parar de chover. Agarramos no primeiro rickshaw e que importa se formos roubadas. Não queremos acordar o Jorge nem o Bunty, é cedo.

O rickshaw driver não pesca nada de inglês. Nós dizemos – centro da cidade, ele percebe – centro comercial, nós dizemos – um café quentinho, ele percebe – tomar café, nós dizemos – chove muito, ele diz – TSUNAMI. Alto lá. Uma coisa é não nos entendermos, outra coisa é um TSUNAMI – são oito da manhã e não dormimos nada no autocarro, é perfeitamente possível uma onda gigante atingir o interior do interior da índia, sobretudo porque chove tanto. O telefone toca, é o Jorge. O Jorge diz, quer dizer, o Bunty fala, o Bunty é que fala com o nosso rickshaw driver. Sempre vamos ao Centro Comercial, quer dizer, o ponto de encontro é em frente ao Centro Comercial, nós vamos para casa.

Esta lá tudo, no centro, o café quentinho e uma “ganda onda”. Conhecemos o Jorge e o Bunty em sítios diferentes, a tempos diferentes, e quando, enfim, nos encontrámos, foi como se todos os sítios e todos os tempos sempre lá tivessem estado. Fazemos tão bem família, tudo faz tanto sentido, sem cerimónias nem constrangimentos.

Palavra que puxa palavra, história que lembra outra história, risos a fugir para gargalhadas. A melhor foi a do Bunty. O Bunty, muito orgulhoso, chega-se a nós e mostra-nos uma fotografia. Tirou-a numa tarde depois de Mumbai, alguma coisa o fez lembrar-se de nós – a situação é bucólica – estamos numa estrada onde há carros e uma árvore, debaixo da árvore pastam placidamente duas soberbas vacas, uma castanha e outra mais clara – são vocês – diz o Bunty, sincero e feliz. Gargalhada geral, o Bunty, inocente, continuava sincero e feliz, sem perceber nada. O Jorge, a perceber tudo, lá explica ao Bunty que, por mais que sejam sagradas, chamar vacas a duas meninas não é assim tão feliz. E continuamos a rir, a beber kingfishers e a comer queijo da serra, cajus e outros fritos indianos.

Bangalore passou-se assim, por casa. Mas ainda houve umas abertas para uma noite das bruxas, um buffet da meia-noite (e de meia-noite também), um almoço indiano e outro vietnamita, um abraço ao Jorge que foi mais cedo embora, um passeio pelos jardins botânicos de Lalbagh, uma ida ao shopping mais xpto cá do sítio, um “Death by chocollat” – o sundae de morrer por mais, e uma boa hora de sono num rickshaw em hora de ponta.

Não chove em Bangalore. Chegamos à estação certa e a mochila continua a pesar muito. Não queremos deixar o Bunty, ainda é cedo, ainda vamos a tempo de o levar connosco. é só ele ir a casa buscar a mochila e voltar. São só 20 minutos. Se o autocarro chegar, já temos uma cena preparada para o fazer perder tempo. Rápido Bunty, despacha-te!