Panjim I Índia
Goa, à procura de um final feliz

Fomos à procura de um rasto. Seguimos memórias gloriosas, armas e barões assinalados, na busca de um antigo reino que antes tantos sublimaram. Séculos depois chegámos, prontas a sentir na primeira pessoa o que os livros de história sempre contam na terceira. Séculos depois, Goa. O que descobrimos, quem encontrámos, como o sentimos?

Os nossos olhos são objectivas com foque português e desfoque indiano. O nosso retrato não é o do sari sarapintado, é a placa azul do “Aleluia Menezes”, não damos pelas bugigangas nem pelos artefactos, o disparo é para o “Hotel República”, o “Clube Nacional”, as “Tintas, Ferro, etc”. Falamos alto em português a ver se nos respondem na mesma língua e recuperamos o paladar no calamar e no camarão, no vindalho e no sarapatel.

é a primeira vez que pisamos uma terra que já foi nossa, a primeira vez que esse mito colonial atinge a nossa realidade, ou o que resta dele. O tempo não é desculpa, mas não perdoa. Reconstitui-se na memória a Goa dos portugueses, mas a Goa de hoje não lembra estoutra.

Hoje, Goa é um português arranhado, é uma missa rezada em inglês e concani numa igreja de sapatos deixados à porta. é a Goa dos Silveiras, dos Menezes, dos Fernandes, dos Pereiras com sotaque muito pouco nosso. Uma urbe indiana enfiada entre linhas portuguesas, com bairros coloniais tapados à chapa dos reclames e dos fios da electricidade. Uma cultura de caos num “sossego” que ainda diz tanto de nós. Chamam-lhe indianização a esta trapalhada civilizacional.

Dentro das antigas casas coloniais resta a saudade, mas persiste a feição – velhos retratos de olhar fulminante à formiga branca, móveis mestiços verticalmente a perder o traço, paredes esbatidas a bater-se solidamente contra o tórrido fastio dos trópicos. Entramos.

Ouvimos-lhe as histórias. Os filhos que emigraram, os netos que já não vão saber, o tempo que não volta. Fala-se dos portugueses, da camaradagem, dos heróis. Pessoas arquivo, detentoras dos acontecimentos importantes, da esconjurada e escondida história da libertação, que chamam de invasão.

Os portugueses trouxeram ocidente a este oriente. Criaram uma identidade, uma linha de pensamento, um novo povo. O novo povo criou um novo estado, noutra linha de pensamento, um novo estímulo. O novo estímulo atraiu outras nações, outras linhas de pensamento, vontades novas. As novas vontades vêm para Goa, porque em Goa há outras linhas de pensamento, mais a ocidente.

Esta é uma longa história, com muitas páginas por ler, ainda mais por escrever. Não lhe avistamos um final, mas os nossos dias estão contados. Goa é dos goeses, este é o nosso legado. E a história continua.