Salvador I Brasil
São Salvador da Bahia e de todos os Santos

Chegámos contrariadas a Salvador. Não que Salvador tivesse culpa, a culpa vinha da nossa cabeça, cada dia mais para lá do que para cá. E se há que chegar a Lisboa, que seja quando chegarmos, não cá, não na Bahia. Mas a cada esquina que cruzávamos lá estava ela, a subir de Alfama à Graça, cantos da Lapa e da Estrela, cores da Mouraria, praças das Flores. Contrariedades e maus humores que ao final do dia já nos faziam rir à passagem do autocarro para a Graça, para a Lapa, para o Campo Grande, para a Sé. Que raio. Fomos beber Skol a ver se ao menos a cerveja não nos sabia a casa. E não sabia.

Na manhã seguinte Salvador acordou carregada de ananases, tucanos, baianas, mães de santo, capoeira, búzios e 35º. E quando se amanhece neste tropicalismo corre-se para a praia para não perder nada, nem a cadeira, nem o picolé, nem o sorvete, nem a castanha, o coco, o açaí, a tapioca, a mandioca, o acarajé, o queijo coalho, a hena, a canga, o biquíni. Queimamos a pele com gosto, se ficarem marcas são de cá, não são daí, e viramo-nos na canga molhada de mar quente. é ao fim do dia que voltamos ao Pelourinho, a esta colina concentrada de casinhas portuguesas, pele negra e lenços na cabeça. Chamam a Salvador a Roma Negra, a Meca da negritude, este é o centro da cultura afro-brasileira e o ícone lato do Brasil. é a terra da capoeira, do berimbau, do samba, do Jorge Amado, do Caetano e da Maria, da Gal Costa, do Tom Zé, dos Novos Baianos, do Gilberto Gil e do João Gilberto também foi casa. E só podia ser assim, há tanta origem e tanta mescla, tanta cor e pele, tanto sangue, tanto ritmo nesta terra, basta ouvi-los falar para nos irmos bamboleando neste jeito, jeitinho, arrastado e doce.

Ah coisa feia a colonização, esse roubo de terra e de gente, mas caramba, nunca tanta cultura junta foi tão bonita.