Caraíva I Brasil
Até Caraíva

A proeza de chegar de Diamantina, nas Minas Gerais, a Caraíva, na Bahia, começou logo na pachorrenta e abafada rodoviária do Tijuco, no guichê da Gontijo. Querer comprar um bilhete de Governador Valadares para Itabela rendeu-nos uma hora, uns tantos quiproquós, uma chamada com a mesma interferência das estradas mineiras, esburacada e aos solavancos, e uma paciência de Jó. Já não bastava nós querermos ir para onde nem o moço da Gontijo sabia que se podia vender um bilhete, ainda tínhamos de falar naquela língua esquisita – o português – aqui sempre confundido com o espanhol. O rapaz viu-se e desejou-se com as meninas que sabiam exatamente as horas e todos os pontos de paragem do ónibus que saía de Belo Horizonte e chegava a Porto Seguro, mas queriam embarcar no quarto ponto depois da partida e sair no terceiro antes da chegada. Para além do moço não ser propriamente um exemplo de desenvoltura e eficiência com as tecnologias, entenda-se o software da Gontijo, o próprio do software não está feito para conexões inusitadas, entenda-se não tira bilhetes de qualquer ponto a outro qualquer ponto dentro do mesmo percurso. Ora depois da tal hora, e esgotada a paciência, o rapazinho lá nos vendeu o bilhete, errado. E no fundo nós até sabíamos. Deixámos a rodoviária naquele riso contido a prever o dia seguinte.

às seis e meia da manhã de uma quinta-feira que se prevê muito quente subimos a inclinada Rua Joaquim Felício rumo à rodoviária. às sete, depois de um café excessivamente açucarado (no Brasil a pergunta não é se há café, a pergunta é se tem sem açúcar), entramos no primeiro ónibus que irá parar em todas as freguesias e em todas as pessoas que num meio de caminho façam sinal para também entrar, até chegarmos ao Serro. Ficaremos meia hora a esconjurar os horários impossíveis dos autocarros que não nos deixam sentar com as senhoras de óculos graduados, pele queimada e vestidos floridos, que não nos deixam beber outro café açucarado no boteco com os homens que bebem cachaça logo pela manhã, que nem nos dá tempo de subir a rua até à casa do povo, para olhar de cima a vila histórica de casas azuis e brancas, de pó e terra batida, de gente a fazer a vida sem turistas a tirar fotografias. às dez da manhã entraremos no colectivo que nos vai fazer suar em bica e que chegará a Guanhães a tempo de almoçarmos o último feijão tropeiro e amaldiçoarmos as duas horas que temos numa cidade tão feia, tão quente e tão seca. Só às três da tarde arrancará o ónibus que nos vai levar à tão quente, tão seca, mas nem tão feia assim Governador Valadares. E em Governador Valadares esperaremos onze horas até já não termos mais nada para xingar – rais parta o gajo que nos vendeu o bilhete do último autocarro para a Bahia.

Na manhã de Sexta-feira, depois de termos cruzado um dos cenários mais inacreditáveis desta viagem, que nem sabemos ao certo onde é, ou se realmente existe, chegámos a Itabela. São onze da manhã e o próximo ónibus para Caraíva parte às duas, e depois ainda são mais duas horas de caminho – mas não era já aqui ao lado? – na Bahia as estradas ainda são mais esburacadas que em Minas Gerais, e quarenta quilómetros podem bem render as tais duas horas se juntarmos as paragens, as lombas, as poças, as subidas a pique, as plantações de café carregadas de grão, os hectares de cabeças de gado, as linhas de palmeiras e de bananeiras – podíamos jurar que ali há bananas para alimentar o Brasil inteiro – os rios, os riachos e os lagos, os despenhadeiros, as chapadas, as cercas verdes, o horizonte verde, uma casinha sarapintada aqui, outra casinha colorida acolá, crianças descalças de cabelos encaracolados a correr no meio das galinhas, mulheres a manter o traço de outra civilização, mulheres em carapinha, homens sem camisa, homens de músculos, homens do rio, homens do gado, homens do mar, chegámos. Demorámos quase dois dias para chegar. Ainda temos de apanhar a canoa para o outro lado, são só mais cinco minutos.