Diamantina I Brasil
Glória à rainha, Glória à Chica da Silva.

Comecemos pelo fim, sentadas numa mesa a comer a canjinha que a Dona Neyde ofereceu para o jantar. Estamos num restaurante com a Chica da Silva pintada e representada nas paredes e nos tectos, cada rendinha, quadrinho, pincelada e boneca são fantasias das donas deste lugar. Uma a uma vão-se sentando à volta da nossa mesa, a primeira ensina-nos o segredo da canja, a segunda mostra-nos a renda que está a tecer, e a terceira encanta-nos com as histórias do tempo da Chica da Silva – “Se querem saber como tudo se passou, perguntem-lhe a ela”. Tínhamos a deixa certa e a história começou assim: não é que a Chica fosse a única escrava a virar dondoca de um branco de boas famílias, o fenómeno é que a Chica da Silva foi a escrava que ganhou o homem mais rico e poderoso daquelas paragens e, pelo que se diz por lá, até do Mundo. O contratador João Fernandes de Oliveira, que tinha a cargo a exploração dos diamantes da região, deu-lhe tanto amor, tanta liberdade e capricho, que a Chica fez-se “rainha” e senhora da terra dos diamantes. Ora esta Chica sempre foi esperta, ainda estando no povoado do Serro, na posse do seu antigo “senhor”, e já tendo dele um filho, que viria a tornar-se num dos arquitectos da reconstrução de Lisboa depois do grande terramoto, já a Chica sabia bem a quem queria pertencer quando este “senhor” foi forçado a livrar-se de uma das suas mulheres. Recusou-se a ser leiloada a qualquer um, e sim, quis ser vendida ao contratador João Fernandes. Da vida da Chica fantasia-se mais do que se sabe, diz-se que era muito bonita, mas não há um único registo ilustrado da sua beleza, fala-se da sua malvadez e contam-se histórias escabrosas dos seus acessos de crueldade, mas também se fala dos seus sentimentos devotos, do seu apoio aos quilombos e do empenho na luta contra a escravatura. Mas do que ficou por cá, resta a igreja que mandou construir com um sino nas traseiras para não a acordar e com a torre nos fundos, para que tanto ela, quanto qualquer escravo pudessem entrar sem qualquer obstáculo na igreja. Já a casa está vazia, mas há quadros e versos na parede que lhe contam passagens da vida. E demos mais uma garfada na tarte de limão. A história continuou, desta vez a contar os últimos anos do contratador, o homem que o Marquês de Pombal obrigou a regressar a Lisboa, para que a riqueza de Diamantina ajudasse na reconstrução da cidade depois do abalo de 1755. Ficámos também a saber que Diamantina era mais do que parte da colónia do Brasil, para entrar lá era necessário uma autorização especial no passaporte, porque esta zona era considerada província do Reino de Portugal, era como se ao lado do Minho estivesse Diamantina. Mas tanto excesso de zelo, tanta protecção, que deixaram passar dentro de santos e objectos afins carregamentos e carregamentos de diamantes que os ingleses e holandeses levaram de lá à socapa. Faz-se tarde, a dona Neyde está cansada, ficamos com a Juna Furtado e o José Sarmento de Matos no bloco de notas para sabermos o resto da história.

Terminemos pelo início. A avó da Fernanda não estava à nossa espera, achava que só chegávamos no dia seguinte e abre-nos a porta atrapalhada com aquele ar de quem não contava com a visita. Mas como não tem mal nenhum dá-nos logo a chave do nosso quarto e deixa-nos à vontade para lhe batermos à porta sempre que quisermos. E assim foi ao serão, depois de descermos ao mercado e subirmos à Baiuca, batemos-lhe à porta. Assim foi no café da manhã que tomámos com ela, assim foi a lavar roupa no tanque das traseiras da linda casa ao centro de Diamantina. Foi assim logo depois de almoço, a subir e descer as ruas de casinhas brancas e azuis, para a Dona Neyde nos apresentar a Tuca. Foi assim à hora do lanche, a comer abacaxi e a falar da querida neta Fernanda que ficou em Parati. E assim foi à hora de jantar, quando fomos encontrar a querida avó Neyde, à hora marcada, para comer a canjinha.