São Paulo I Brasil
Sampa?

Fomos a São Paulo ter com a Rita ou fomos ter com a Rita a São Paulo? Chega de saudade. Um ano depois uma descarga eléctrica de abraços e beijinhos, uma detonação de episódios em atraso, um atropelamento de três amigas a tentar contar um ano numa hora. A urgência de chegar a São Paulo, a correria de chegar a São Paulo, as dezoito horas até chegar a São Paulo, só para ainda passar uma semana com a Rita.

Encontramo-la entre o Sebastião Salgado e o Seiva Trupe num abraço, claro está, a correr. Mas foi entre amendoins japoneses e morangos cristalizados que nos fizemos ao espumante e à galinhice, que continuou a cacarejar com Brahma numa esquina da Augusta, a rodar pratos em Jardins, nas caipirinhas de adoçante do esquenta, nas caipirinhas de maracujá com Cazuza, a bater fotos no SESC Pompeia, a sambar na Vila Madalena, a descobrir o pão francês com queijo de minas, para sempre acabar em armários, roupas no chão e em cima da cama.

Mas agora a Rita vive em São Paulo, no ritmo de São Paulo, ao ritmo de São Paulo, e quando a semana começa os tempos da nossa Rita começam a ser diferentes e os nossos também. Agora é com o cheirinho do café do Filipe que acordamos e já não há Rita para nos levar ao SESC Belénzinho, ao SESC Pompéia, aos passeios pela Paulista, às feiras de velharias e artesanato. Agora somos nós que temos de dar com o Parque Ibirapuera imaginado pelo Nimeyer e deixarmo-nos passar lá o dia entre a Grande Marquise, o Planetário, o Museu Afro-Brasileiro e o reflexo do lago com os grandes prédios a fazer fundo. Somos nós que trepamos e derrapamos nas ruas acidentadas de São Paulo para dar com a sandes de mortadela do Mercado Municipal (depois do queijo de Buenos Aires, agora a obscenidade é a da mortadela). Somos nós que temos de sentir na pele que há uma hora em que começa a ser perigoso passear pelo Centrão, de fachadas barrocas e coxas gordas, de edifícios corpulentos e arranha céus, dos corredores das casas-caixote com gente meia-dentro, meia-fora. A Sé, que tem palmeiras, numa praça de palmeiras e vagabundos, galerias de segundo piso com lanchonetes no rés-do-chão, as lojas dos esferovites, das flores de plástico, da bijuteria barata, da roupa de armazém, dos plásticos, das petshops, dos tecidos, das cruzetas. Somos nós que pedimos “licencinha” para passar entre os rufias e os bandidos de t-shirt do Corinthias, do São Paulo, do Palmeiras, com as tatuagens agarradas aos antebraços musculados, aos antebraços chupados, aos olhares de aviso e de “cuidadinho”, de frente para a Igreja imaculada e alvinha, num Páteo do Colégio bem comportado, debaixo do olhar dos policias de patrulha. E somos nós que temos de ser malandras para subir ao quinquagésimo sétimo andar do Edifício Itália e não pagar o café fora de hora visita. E de lá de cima o Copan do Nimeyer, ao fundo o Bradesco, a linha da Paulista, o Martinelli,
trezentas e sessenta graus de prédios altos que só se esbatem no rasto do nevoeiro.

Chega de saudade. Um ano depois, a Fábia, na Sampa dela, na casa da irmã dela, com os amigos delas. Dois abraços demorados, um serão até tarde de conversa, pastéis de nata, bacalhau e um copo de vinho partido na parede, a brindar às boas ideias. Jantar marcado para o dia seguinte. Chega de Saudade. Um ano depois, o Rui, que mandou “a antiga bordalesa” pelas escadas abaixo e nos deu um abraço manco. O bacalhau voltou para a mesa, o vinho, a conversa e as saudades de Lisboa também. O reencontro será para breve.