Santiago I Chile
36 horas em Santiago

Se há umas semanas atrás fomos forçadas a ficar uns dias a mais pelo Chile, desta vez estamos presas na Argentina. Num só dia caíram quinze graus e toda a neve dos Andes. Chegamos a Mendoza e o “paso esta cerrado”, ou seja, a fronteira com o Chile só reabre quando houver condições, o que pode acontecer ainda hoje, amanhã ou talvez só no dia seguinte. Quando já tínhamos riscado Mendoza da nossa rota lá está ela a atravessar-se-nos no caminho, hoje vamos mesmo ter de ficar aqui, a fazer muitas figas para que amanhã cheguemos ao outro lado. E já se sabe como é quando há vias cortadas, ou há crise nos aeroportos, ou rebenta um vulcão – linhas telefónicas sempre ocupadas, filas para isto ou para aquilo, é preciso acordar mais cedo do que toda a gente para garantir um lugar ou um bilhete, enfim, foi mais ou menos isto que se passou no dia seguinte. às seis da manhã já estávamos a telefonar para a companhia de autocarros, às sete outra vez, às sete e meia outra vez, às oito já estamos a fazer fila na estação, e ainda não se sabe se já está aberto o “paso”. é só às dez da manhã que recebemos a boa notícia de um lugar garantido no autocarro das onze para o Chile.

Voltámos a sentir estalidos nos ouvidos, voltámos a bater recordes de altitude, a ter aquela sensação ciclópica que é atravessar os Andes. Está tudo branquinho, estamos a cruzar estâncias de neve, perninhas de esquis a dar-a-dar em balancés de teleférico, casinhas de telhado em bico, para voltarmos à pista de brincar em grandes ésses de camiões, agora já do lado do Chile.

Santiago, cinco da tarde sentadas numa esplanada a ver a neve dos Andes ao fundo. A Isabel chega de saia às pregas e bicicleta na mão, conhecemo-la vestida de Uma Thurman numa festa de carnaval em Madrid, e desde aí nunca mais a vimos. Já estamos tão habituadas ao mundo-ervilha desta viagem, que nem estranhamos que a Isabel da Ana Castanho, seja a mesma Isabel do Luís e da festa de Carnaval de há quatro anos atrás. E a conversa recua os quatro anos, voltamos àquela noite, àquele apartamento, a tudo o que se passou, daí para a frente. Encostam-se as mochilas na sala e vamos para a varanda brindar às coincidências com vinho chileno, mas hoje o jantar é mexicano, ou melhor, é com mexicanos, que o guacamole somos nós que fazemos. Voltamos a ouvir aquele slang querido, o modismo cantado do “wey guey”, do “pinche pendejo”, do “padre” que é fixe, do “madre” que é mau, do “orale”, “ah huevo” e da “hueva” molengona que é um “desmadre”.

A Isabel já nos escreveu o plano do dia seguinte – vinte e quatro horas em Santiago – há que ir aos lugares certos, há que não perder o melhor e o curioso da cidade. A manhã é para o Poeta e para os cabelos da Matilde – La Chascona – o nome da casa de Santiago e o segredo de um homem casado. Depois do barco da Isla Negra, entramos num outro barco sem vista de mar, mas com vista para os Andes e dois braços de rio a atravessá-lo – Pablo Neruda, o capitão que não sabia nadar e que não podia viver sem água. Hoje já não corre água na Chascona, mas ainda se chora o ultraje, o golpe profundo, o vandalismo que rasou dias depois da queda de Salvador Allende. é tanta a brutalidade no assalto que a biblioteca do poeta é feita pasta de papel atirada ao canal – foram muitos os livros, os manuscristos, as cartas e as fotografias que estancaram o braço de rio e lhe mudaram o curso para dentro de casa – a literatura de Neruda, a água do Capitão, as duas massacradas de uma só vez, uma de frente para a outra, uma contra a outra, tortura, terror, tanque de guerra. Dias depois morre Neruda.

Saímos da Casa, mas ficamos no Bairro. Se há uns anos atrás Neruda o escolheu por ser arredado dos rumores da cidade, agora faz-se muito barulho em Bella Vista, o centro de universidades e estudantes, muita gente na rua, ruas de esplanadas de papel e lápis na mão. Apetece ter muitas mais tardes em Santiago para conhecer os bancos, as cadeirinhas de palhinha, as de ferro fundido, as design e as mais toscas, mas tempo não o temos por cá. Atravessámos as grandes e largas avenidas para chegar ao GAM, o Centro Cultural Gabriela Mistral tem um café simpático onde partilhamos umas empanadas enquanto deitamos olho à agenda, aos espectáculos de dança, aos concertos, às performances, conversas e exposições. Mas chegámos tarde de mais e também já não vamos a tempo, por isso, vamos dar uma vista de olhos a Lastarrias, o bairro que fica nas costas do GAM. Fachadas clássicas com plantas no parapeito e heras a subir-lhe nos muros, lojas giras e feirinhas nos largos, mais esplanadas e gente ao sol. Bairro Itália, outro gosto destes, mas mais pitoresco, mais baixinho, com mais galerias ainda. Este é o bairro que escolhemos para um chá inesperado com o querido João. O nosso grande amigo lisboeta que vive em Bogotá está cá de passagem, mais coincidências boas, apesar de as saudades e as conversas não se matarem em duas horas de fim de tarde. E porque o João nos inspira sempre alguma boa vida, depois do abraço forte, ficamos ali ao lado a jantar num Jardin de mantinha nas pernas. Regressamos à Argentina amanhã de manhã, Buenos Aires, até que enfim. Mas e os dólares? Esquecemo-nos de trocar dólares esta tarde, só temos uma meia hora amanhã bem cedo, e não podemos perder a oportunidade da taxa de cambio do mercado azul, são 9.2 contra os míseros 5. Há que fazer render o peixe.