Valparaíso I Chile
Las olas de la tierra

“Qué disparate eres, qué loco, puerto loco, qué cabeza con cerros, desgreñada, no acabas de peinarte, nunca tuviste tiempo de vestirte, siempre te sorprendió la vida, te despertó la muerte, en camisa, en largos calzoncillos con flecos de colores, desnudo con un nombre tatuado en la barriga”*, na barriga da perna, estampada no peito, no antebraço que levanta a carga e puxa a corda e atraca o barco. Gorro encardido a tapar os olhos, vadiagem, cheira a peixe e a gasolina e já ninguém faz continência aos chapéus dos marinheiros, às mareadas, aos marujos da má vida em roda-viva cais fora. é o corrupio, o rodopio da boémia, das latas de cerveja e das garrafas de vinho deixadas, os ganidos e os miados, os psssst e os assobios da vigairada, da carrascona vida airada do homem do mar de Valparaíso. Ferve em pouca água, sabemos bem as ebulições que sobem à gente que trepa ruas inclinadas, que galga cerros e alaga praças. Assim é Valparaíso, como podia ser San Francisco, como é Hong Kong, como também podia ser Buenos Aires, Tóquio, Mumbai, como é Lisboa. Cidades de porto, de carga e contentores, da gente metida com o mar, que vai e vem do mar e traz a onda que rebenta nos murais, nos teatros e cafés, nas lojas vanguardistas, nas galerias, nos cabelos pintados e nos braços tatuados à homem do mar.

Valparaíso já não é o porto temerário do Pacífico, foi traído pelas curvas estreitas e pela cintura fácil do Canal do Panamá. Valparaíso ao canto do bar a beber tragos de tudo, Valparaíso cornudo, a engolir o esquecimento e a deixar decair os grandes edifícios, a queimar a baixa dos mercados, a alimentar pombos com o lixo e a miséria dos vagabundos. Foge-se para os cerros para onde debandaram os artistas que lá em cima criaram por cima das paredes a descamar, que comeram a ferrugem do zinco de trincha e pincel na mão, que tiraram fotografias, que escreveram poemas, que ilustraram épocas, que esculpiram paixões, Rubén Darío, Pablo Neruda, Mauricio Rugendas, Camilo Mori, Lukas, Antonio Quintana, a nova vaga, e devolveram a onda ao mar. Nas colinas de Valparaíso apanha-se sol nas esplanadas, bebem-se bons cafés e há pratos aprumados nem que seja para servir empanadas de frente para os muros dos grafites, apetece cruzar cada esquina, entrar nos becos, furar quelhos e vielas porque é aí que corre a água salgada e cada parede confessa um pensamento. Subimos e descemos elevadores da glória, retesamos gémeos escadas acima, colina acima com frases na mão, à procura de caras e corações ao mesmo tempo. Falhámos a do poeta do mar, que nem à porta lhe batemos, e só na Isla Negra enchemos a nossa casa de versos.

“Pronto, Valparaíso, marinero, te olvidas de las lágrimas, vuelves a colgar tus moradas, a pintar puertas verdes, ventanas amarillas, todo lo transformas en nave, eres la remendada proa de un pequeño, valeroso navío.” *Pablo Neruda