Salta I Argentina
La Linda

O sol de Purmamarca deixou-nos radiantes, e é de phones nos ouvidos, a cantar alto com o René Pérez, que continuamos a descer a Quebrada de paredes escarpadas, rios secos e árvores sem folhas até Jujuy. Mudamos de autocarro, mas os phones ficam com “buena onda y musica cachonda”, o baile dos pobres às voltas no banco do colectivo.

Eis-nos às sete da noite a chegar a Salta, tão bem dispostas e com tanta vontade de fazer chichi que as vinte quadras de caminho e mochilas às costas volaram. Mas é no DIA que começa a noite – a primeira coisa que fazemos quando chegamos a um lugar é enfiarmo-nos num supermercado, e há DIA na Argentina. Era ver-nos de bocas abertas, feitas saloias, a parecer que nunca tínhamos entrado no mais comum dos supermercados, corredor acima, corredor abaixo e anda cá ver isto, olha só o que é que está aqui, há taaanto tempo. Era uma súbita felicidade, uma euforia de olhar arregalado às embalagens com transparências, aos tetrapacks familiares, aos pacotes de madalenas com Dulce de Leche por dentro, às galletas com Dulce de Leche por toda a prateleira, há iogurtes da Danone e da Yoplait, há bolos redondos fatiados para meter recheio, há molho de tomate à portuguesa, não há noodles, há raviolis frescos, há corredores de queijo creme a bom preço. Como sempre, saímos com um cestinho de meia-dúzia de coisas para o jantar, mas foi tão grande o estardalhete, que a senhora da caixa até nos ofereceu um cubinho de Caldo Knorr para os raviolis.

Depois de um dia frio de neve, em que nem nos atrevemos a sair à rua, uma manhã solarenga pede um saltinho ao centro de Salta. Entre o almoço e as conversas faz-se uma – tudo fechado, às duas ainda está tudo fechado, como vai continuar fechado até às cinco, parece que são os horários argentinos, parece que herdaram esta coisa espanhola da siesta. E enquanto esperamos que a cidade abra, vamos caminhando por ruas de portas fechadas com carrinhos de fazer pipocas em cada esquina. Podíamos bem estar numa rua de capital de distrito portuguesa, daquelas que tem loja sim, loja sim, que vai sempre dar a uma Praça Central de edifícios maiores, a igreja, o teatro, os palacetes, o quiosque, o coreto, os bancos de jardim com velhotes parados ou a ler o jornal, a vidinha. Mas também da Praça Central saem ruas de outro traço, de vestígio colonial, das casas baixinhas, das cores pastel e das trepadeiras. Saem à rua argentinos de traço fechado, olhos semi-cerrados e tom caramelo. Aqui no Norte a gente é mais de cá e menos daí, não há tantos Cezanas, Ciffonis, Toscaninis, Mastrogianos, Kellers, Murrays, são mesmo mais de cá.

é com alguém muito de cá que jantamos esta noite. Só temos que ir buscar duas calabazas, choclo amarelo, crema, cebolas e queijo de máquina. Depois o Victor faz-nos a receita da avó chamana e oferece o vinho.