Purmamarca I Argentina
Enfim, Argentina

Aos sábados os autocarros argentinos não andam e somos forçadas a ficar mais um dia em San Pedro de Atacama. Mortinhas por chegar à Argentina e temos de ficar mais um dia pelo Chile. Mas Domingo de manhã já estamos sentadas nos bancos da fronteira à espera que o autocarro passe e nos leve dali. Volta-se à estrada que já se fez, do lado esquerdo a Bolívia, mais à frente a Argentina. Fronteira traçadas por vulcões e grandes planícies de terra vermelha e manchas de neve. Voltamos a subir mil metros neste passo de caracol e vidros gelados, o autocarro embala muito, mas a paisagem não deixa ninguém dormir (apesar dos cretinos de cortinados fechados, que insistem em passar ao lado de uma das estradas mais bonitas da nossa noção de mundo).

Passaporte carimbado, sorriso de esguelha, guardas galantes, piropos e picardias. Entrámos na Argentina. Todos em fila, mochilas alinhadas, sentido aos cães que farejam mochila a mochila, saco a saco, até que corremos de novo para o autocarro, que estamos a mais de quatro mil metros de altitude e por mais que paremos ao sol, está um frio e uma ventania de gelar os ossos. Mudamos de país, mas a terra tem a mesma cor, as vicunhas continuam a saltar em bandos e o deserto não parece chegar ao fim. é ao final da tarde, quando o sol se começa a pôr, que descemos aos ésses a Quebrada de Humahuaca, uma pista de brincar com quilómetros e quilómetros de extensão, ravinas de filmes fantásticos ou talvez a pista plateau para as velocidades dos “Fast and Furious” (um dos mais vistos nos autocarros da América Latina).

Purmamarca, chegamos a uma das vilas mais picturescas da Quebrada. Purma é deserto, Marca é cidade. Mas esta Purma é terra inculta, não tocada, “Pueblo de la Tierra Virgen”, chamavam-lhe os indígenas de cá. Pouco lhe mexeram, pouco a tocaram e continua a menina dos olhos do cerro colorado. Uma praceta com uma igreja, com um mercado, com uma feira. E depois anda-se à volta num passeo colorado, entre cactos e lamas, entre gente com traços ainda tão indígenas e artesanato que aqui parece mais bonito. Comemos empanadas com o sol a fechar-nos os olhos e a deixarmo-nos ficar vermelhas, que este calor acompanha tão bem. Quedamo-nos na esquina da praça a olhar à volta e a fazer tempo para o autocarro das quatro.