Salar de Uyuni I Bolívia
É na Terra e não em Marte - II

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Já faz parte acordar às seis da manhã e às sete estar de mochilas às costas com o pequeno-almoço tomado. Já fazem parte as quatro camadas de roupa vestidas debaixo dos cobertores. Já faz parte gelar as mãos e a boca a lavar cara e dentes. Já faz parte o tique de estar sempre a esfregar as mãos nas pernas, as costas curvadas e a pele arrepiada. Mas o pior ainda estava para vir.

O jipe arrancou sem solavancos esta manhã. Ficou o último olhar pelo Salar e entrámos pelo deserto dentro. Depois de passar o controle militar de Chiguana, que entre o Chile e a Bolívia há muito narcotráfico e emigrante ilegal, seguimos a linha de comboio de Pasa de León para chegar mais perto do Vulcão Ollagüe, um activo de dupla nacionalidade – é chileno e boliviano e está sempre a esfumar. Voltámos a entrar enregelados no jipe, em todas as paragens tem sido isto, vestir os casacos mais fortes, o cachecol a tapar tudo, luvas e corridinhos de cinco minutos para a foto. Mas quando chegámos às lagoas, os cinco minutos estenderam-se para meias horas, de máquina em riste até se perder a sensibilidade. Mas se há frio que se tolera, é de frente para estas lagoas que mudam de cor, que estão rodeadas de vulcões nevados e aninham flamingos indiferentes às fotos. Perseguimo-los de objectiva apontada ao passo galante, à postura elegante e à cabeça sempre dentro de água. Cañapa Laguna, Hedionda Laguna, Honda Laguna, de lagoa em lagoa o deserto muda de cor, crescem árvores de pedra e o caminho deixa de ser caminho para se tornar em marcas de rodas aqui e ali, sempre alinhadas à cadeia de vulcões. Passam por nós vicunhas selvagens, aos bandos e aos saltinhos. São uma espécie de alpacas mais pequenas e elegantes, a nós pareciam-nos bâmbis de deserto e altitude, a correr entre bolos de chocolate polvilhados de açúcar em pó, ou bolos mármore dancake, ou caixas de bombons suíços, todos cones e pirâmides com fios de caramelo e chocolate branco. Um deserto de neve, vulcões gelados e plantas raras rasteirinhas.

A tarde termina na Laguna Colorada, a mais espectacular de todas. Podia ser um padrão com texturas e degradês de azul petróleo a vermelho vinho com entradas de branco-sal e branco-gelo, linhas rosa pontuadas de flamingos e a vontade de chegar mais perto e tocar todas as cores. Tanta vontade que nem se apalpou terreno. Era ver uma a correr entre cristais de sal, a saltar cristais de gelo. Era ver a outra a gritar “não vás por aí”, “tem cuidado”. Era ver uma a dizer “está a ficar lamacento”, e a outra a ver que estava mesmo a ficar muito lamacento. Até que ficou mesmo. Era vê-la a correr entre lamas pantanosas, era vê-la a enterrar-se até aos joelhos, com uma carinha aflita, mais branca que os cristais de sal e de gelo juntos. Era a outra a agarrá-la depois de um salto heroico até à margem segura, já sem uma bota. Com a lama gelada a congelar-lhe os pés e as pernas, ainda tentou salvar a outra bota, mas os menos quinze graus, a distância até ao abrigo e os berros da outra, obrigam-na a correr descalça até a um porto mais ou menos seguro (o nosso porto-seguro não tem água quente, não tem fogão, nem gente que cuide de quem pede ajuda). Uma vai, outra fica, há que salvar a bota. Entretanto o nosso grupo já é todo coesão e entreajuda, há que unir esforços. Plano A – precisamos de um pau. Não se arranja pau, arranja-se arame e afunda-se ainda mais a bota. Plano B – cadeia humana. Fracasso total, quase se afundava outra na lama também. Plano C – há pedras? – Sim, há pedras, são grandes e não vão ao fundo, ou pelo menos tardam a afundar-se. Entre medições de distância e estratégias de resgate, lá se forma um caminho de pedras até à bota. Depois, a operação de salvamento. Uma bota afundada em lama salina gelada é pior do que supercola três, ora quando se está em equilíbrio numa pedra assente numa poça de lama que afunda a cada esticão e a cada esticão é preciso meter as mãos na lama gelada e esburacar, esburacar até deixar de sentir as mãos, mas é só mais um esticão, é só mais um esticão e não têm de se comprar umas botas novas. Salva-se a bota, quase se perdem as mãos. Corre-se em desespero, quase desnorteada e, por sorte, engana-se no abrigo. Aqui há fogo, há água quente e gente que cuida e esfrega as mãos sem circulação. Entretanto, no outro abrigo, o grupo traz a bota, mas não traz a amiga. Alvoroço, zaragata, os outros grupos não percebem tanto gritinho aflito, tanta troca de luvas, meias e roupas quentes. Mas agora onde é que ela se meteu? Estava mesmo à nossa frente. Depois de cinco minutos nisto, começa-se a entrar em pânico. Grita-se, berra-se, chama-se. Alguém viu? Ninguém sabe? Até que depois de dez minutos desesperados, depois de ir ao abrigo do lado, de ir atrás de todas as casas, de se espreitar em todos os buracos, se dá com a cozinha do outro abrigo e se dá com ela, de mãos roxinhas e pés gelados.

Para o jantar uma garrafa de vinho, que o nosso guia lá se compadeceu e lá se arrependeu da falta de aviso com que nos deixou ir atrás das cores da Colorada. E um copo de vinho, a mais de quatro mil metros de altitude, ajuda a esquecer muita coisa. Já tudo ri, já tudo faz piada da grande lição de amizade entre as miúdas e a bota. Prometemos nunca mais entrar em frias destas, e lá nos desculpámos pela trapalhada de deixar o abrigo todo em estado de alerta. Os pés continuavam os mesmos, as mãos, impecáveis.

Na manhã seguinte, pelas seis, deixávamos a Lagoa, deixávamos o nosso grupo de bravos para entrar noutro jipe, eles voltam para Uyuni, nós seguimos para San Pedro de Atacama. Mas pelo caminho ainda brincamos nos geiseres, aquecemos os pezinhos em águas calientes, damos uns abraços e o adeus é um vemo-nos por aí.

Paramos na Lagoa Verde, vemos as montanhas de Dali e cruzamos o barraco-fronteira para o Chile. Agora descemos mais de mil metros, é só mais uma hora e chegamos a San Pedro.